Para fazê-lo, consideramos que a construção habitacional seja o vértice para onde convergem todos os processos industriais e tecnológicos conhecidos - seja pela eterna e crescente demanda por residências, seja porque a casa representa a mais elementar e atávica das necessidades humanas.
Não é uma investigação científica, mas um projeto educacional, voltado para a instrumentação de professores e alunos - de todos os níveis - em suas abordagens sobre as possibilidades construtivas do futuro.
Também não traz em si promessas de solução para os três problemas listados; apenas reúne o que há disponível na vida contemporânea brasileira, que atende a esses três princípios norteadores: materiais substitutivos, cujos custos de transformação não sejam danosos ao meio ambiente e que tragam soluções para coisas que entraram em desuso.
Reciclasa é uma exposição, no sentido em que reúne e exibe soluções alternativas de construção em uma casa de cinco cômodos: uma sala, um quarto de casal, um quarto de crianças, uma cozinha e um escritório. *
Estas soluções incluem tanto produtos quanto processos industriais – empregando os materiais reciclados . Eles vão desde insumos como resinas catalisadoras, que substituem o cimento ; cubos irregulares de PVC, que substituem a brita; telhas translúcidas, e até placas de madeira prensada ou pranchões plásticos.Englobam novas soluções de mobiliário, feito com os mais inusitados materiais: tampos feitos com tubos de pasta de dente, painéis construídos com caixas de leite...Apresenta algumas amostras de um extenso universo de objetos, concebidos com design arrojado e contemporâneo, e feitos a partir desses materiais transformados em suas finalidades originais.
E subverte conceitos e comportamentos, trazendo para a casa e o cotidiano das pessoas, objetos de arte popular de singela beleza, feitos com lixo. Isso mesmo, lixo, como sacos de leite vazio tornados enfeite; garrafas de refrigerantes metamorfoseadas em arranjos florais, em finas bijuterias; jornais velhos que agora servem de mesas e aparadores. Ou em quadros e assemblages que reúnem sucata no constructo de uma nova estética, baseada no fim do utilitarismo.
Pensamos na Reciclasa como se pensa na construção de uma casa.
Convidamos o arquiteto Roberto Coutinho para nos ajudar a elaborar dois estudos:
O trabalho dos arquitetos foi amparado por duas incomparáveis especialistas – Pólita Gonçalves e Amélia Zaluar.Pólita se dedica há anos à pesquisa do lixo e suas possibilidades sócio-econômicas, ajudando a organizar o trabalho de catadores, a desenvolver produtos e mercados para os mais variados materiais em desuso e a instrumentar, com informações, toda a cadeia produtiva que se ergue a partir da morte – ou do fim a que se destina – dos produtos industriais da vida contemporânea.
Foi a pesquisa de Pólita que orientou nossos arquitetos na construção e fornimento da Reciclasa, indicando fornecedores e materiais, muitos dos quais aparecem apenas como referência neste catálogo, tamanha a extensão de sua pesquisa (e de possibilidades no mercado).Já Amélia Zaluar, arte-educadora e pesquisadora de folclore a arte popular, nos guiou em um tour pela obra e história de artistas contemporâneos, muitos deles com trabalhos expostos neste projeto. Artistas populares que impressionam não só pela criatividade e força de suas obras, mas pela sensibilidade de enxergar beleza no que é refugo. Eles traduzem docemente o conceito de que objetos e homens não podem ser descartados por não se enquadrarem em um senso de valores pré-estabelecido.
* Não consideramos o banheiro porque são muito poucas as opções de materiais hidráulicos e sanitários fabricados a partir da reciclagem.
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