NOVAS LEITURAS PARA LIXO, ARTE E HABITAÇÃO
Jason Prado
“Tudo que serve para o lixo serve para a poesia.”
Manoel de Barros.
Desde que as árvores se tornaram inadequadas para a nossa existência, a habitação tem sido um constante desafio da humanidade. Estudá-la é uma das formas para se conhecer os estágios de desenvolvimento tecnológico e científico do homem sobre a Terra.
Isso porque grande parte do nosso “conhecimento” veio em resposta às incessantes pesquisas para tornar as habitações seguras, confortáveis, funcionais, eficientes e acessíveis. Das primitivas cavernas aos telhados de policarbonato.
Mas foi a partir do século XIX, mais precisamente na segunda metade daquele século, com o navio a vapor e outras tantas invenções tornadas possíveis com a revolução industrial, que o homem avançou geometricamente em suas duas expansões planetárias: a territorial e a populacional.
Em menos de duzentos anos ocupamos todos os quadrantes do planeta; aprendemos a construir sobre pântanos e despenhadeiros; controlamos doenças e eliminamos boa parte das pragas; dominamos técnicas construtivas que possibilitaram os conjuntos habitacionais e os arranha-céus, e adensamos algumas regiões de forma impensável – a Grande São Paulo, neste início de século XXI, por exemplo, tem mais habitantes que toda a Europa no século XVI.
Hoje se pode pensar em moradias com o mesmo conforto em regiões equatorianas, ou acima dos três mil metros de altitude nas regiões temperadas. Não se trata, apenas, de equipamentos de refrigeração e aquecimento, mas de técnicas construtivas que viabilizam paredes isotérmicas com as mesmas espessuras e, conseqüentemente, tornam os custos também mais viáveis; o emprego de energia solar e outros recursos desenvolvidos com esse firme e permanente propósito de oferecer a melhor habitabilidade aos seres humanos.
Todo este “progresso” traz como conseqüência, além do conforto, muitas questões das mais variadas naturezas. Três delas, em especial, são inquietantes, recorrentes e estão na ordem do dia , balizando o planejamento de nossa existência para este próximo milênio.
A primeira diz respeito ao esgotamento dos recursos naturais.
Todos já nos habituamos a pensar que, mesmo sendo renováveis, não há florestas suficientes para a produção de mobiliários, portas e adornos de madeira maciça para todas as casas deste planeta. Mas muito poucos de nós pensam nas reservas do calcário, que se transforma em cimento; ou nas minas de cobre, com que se fazem os fios elétricos. Uma coisa é certa: na velocidade de nossa expansão é uma questão de sobrevivência achar materiais que substituam (melhor e mais duradouramente) os nossos processos construtivos, porque a escassez é premente – ela já não bate à porta: está muito bem instalada dentro de casa.
Outra questão está relacionada com o custo ambiental de produção de alguns materiais.
O cimento e o alumínio, por exemplo, consomem gigantescas quantidades de energia em sua produção. Tijolos, telhas, azulejos, material hidráulico... Tudo isso é feito quase que unicamente com a queima de madeira e combustíveis fósseis, grandes geradores de CO2 . Isso nos traz outra certeza: não podemos desordenar (ou destruir) a natureza para encontrar meios de nos protegermos dela.
A terceira se refere ao acúmulo crescente dos resíduos de nossa existência perdulária.E aqui tratamos de todas as espécies de resíduos. Dos banhos de ácido com que se protege o ferro dos canos e pregos nas galvanoplastias, passando pelas sobras dos processos produtivos, como as limalhas de aço ou o pó-de-serra nas carpintarias, até estes mais visíveis e preocupantes, que são os milhões de objetos que perdem seu uso original a cada segundo: as embalagens (caixas, garrafas, bandejas de isopor etc.), os produtos envelhecidos ou obsoletos, como pneus, telefones, televisores, utensílios domésticos, catálogos etc. Esta é uma terceira certeza: não podemos continuar produzindo e empilhando lixo sem corrermos o risco de sucumbir sob seu peso.
O projeto Reciclasa nasceu dessas questões e das premissas que delas decorrem.
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