O CARÁTER POÉTICO DO BRICOLAGE
Para Lévi-Strauss, bricolagem é utilizar na criação de objetos desejados “resíduos e fragmentos de acontecimentos... testemunhos fósseis da história de um indivíduo ou de uma sociedade”. Bricoleur seria aquele que executa operação que consiste em remendar coisas ou fazer objetos com pedaços de outros objetos, que opera com materiais fragmentados já elaborados... arranjando-se sempre com o que recolhe na intenção de que “isto sempre pode servir”. Apto a executar grande número de tarefas diferentes, sem planos pré-estabelecidos, usa de meios e expedientes que “se afastam dos processos e normas adotados pela técnica”. (LÉVI-SRAUSS, 1976:37), em oposição ao engenheiro que segue um projeto racional já elaborado. Por sua liberdade ao criar, o bricoleur consegue sempre “resultados brilhantes e imprevistos”. (LEVI-STRAUSS, 1976:38) Sua fantasia o leva a procurar novos significados nos elementos que são incorporados ao conjunto. Uma lâmpada queimada passa a ser o recipiente para o querosene de uma lamparina ou pode tornar-se o miolo de uma flor. Como muito bem define Lévi-Strauss, “a poesia do bricoleur lhe vem de que não se limita a cumprir ou executar: fala, não somente com as coisas, como também por meio delas, contando pela escolhas que faz entre possibilidades limitadas, o caráter e a vida de seu autor. Sem jamais completar seu projeto, o bricoleur põe-lhe sempre algo de si mesmo”. (LÉVI-STRAUSS, 1976:42).
Como ilustração ao conceito elaborado pelo antropólogo, abordaremos a obra de três artistas populares brasileiros, visionários, sem nenhuma formação acadêmica, que se destacaram como ícones da nossa arte popular: Gabriel Joaquim dos Santos (1892/1985), autor da Casa da Flor, Estevão Silva da Conceição e seus Jardins Suspensos (1957) e Arthur Bispo do Rosário (1909/1989) e suas assemblages. Nos três casos, a capacidade de improvisar impressiona, por conseguirem tirar, dos fragmentos, beleza e poesia.
Gabriel, filho de um escravo e de uma índia, semi-analfabeto, tornou-se artista e arquiteto excepcionais, revelado na construção e no embelezamento de seu lar, a Casa da Flor, em São Pedro da Aldeia, no Estado do Rio de Janeiro. Uma decoração luxuriante nas paredes externas e internas, nos muros que a cercam e na escadaria que leva a ela, em harmonia total com o meio ambiente, compõe um conjunto barroco, fantástico, visceral, surpreendente. Somente com o refugo garimpado no lixo — cacos de louça, conchas, pedras, ossos, bibelôs quebrados — durante sessenta e três anos, ele compôs e recompôs os arranjos ornamentais, fruto de uma fantasia delirante e ergueu uma casa transformada em flor. Ao elevar os materiais mais grosseiros ao nível da arte, mostrou uma singularidade impossível de ser entendida e aceita na comunidade, na época — começou a bricolagem em 1923 — e passou a ser visto como um excêntrico, um louco. Hoje, Gabriel, arquiteto sem diploma, artista que se inspirava nos sonhos e nas visões e fantasias que o dominavam quando acordado, é visto como o exemplo maior da autenticidade enquanto artista, o que demonstra claramente as infinitas possibilidades do espírito humano. Homem que nunca freqüentou uma escola, mas que desenvolveu intuitivamente seu potencial artístico, afirmava sabiamente: “Fiz uma casa do nada”.
Estevão Silva da Conceição começou a erigir e ornamentar seus “Jardins Suspensos” há cerca de dezoito anos. Cansado de ver tudo cinza na Favela Paraisópolis, no bairro do Morumbi, na cidade de São Paulo, onde mora com a mulher e filha, principiou a decorar sua casa com mosaicos, em que usa cacos de vidro, de ladrilho, restos de pratos, moedas antigas e outros objetos insólitos. A construção, devido ao pequeno espaço de que dispunha, foi sendo aumentada, com escadas, muitas curvas e formas sinuosas. Na fachada, ergueu uma gigantesca estrutura, que alcança seis metros de altura, em forma de teia de aranha, de grande riqueza decorativa. No alto da construção, um belíssimo jardim, com orquídeas, cactos e arbustos. A sala, cozinha e os dois quartos ficam na parte de trás da casa, ambos os cômodos decorados nos tetos, paredes e portas com estrelas de madeira, de diversos tamanhos e cores, que ele corta a mão.
Arthur Bispo do Rosário, nascido em Jarapatuba em Sergipe e falecido na Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, passou cinqüenta anos internado com o diagnóstico de esquizofrênico-paranóico. Confinado voluntariamente numa cela, durante sete anos, Bispo criou esculturas, assemblages, mumificou objetos, bordou e costurou. As assemblages reúnem objetos geralmente industrializados (canecas, botões, sandálias, sabonetes, colheres, ferragens), quase todos recolhidos na Colônia, com o aspecto original, isto é, “velhos, sujos, pobres... retrato cruel da instituição”, vitrine, como ele mesmo as chamava, “de um estado de penúria e abandono...” Os objetos mumificados, porque cobertos por uma linha azul, formam um inventário completo de certo estágio da sociedade brasileira. (MORAIS, 1989: 5) Surgem o martelo, a tesoura, a colher de pedreiro, o rolo de pastel. Bastões de misses, com suas respectivas faixas, que demonstram seu conhecimento acerca de vários países, um conjunto que impressiona pelo caráter festivo... Marinheiro no passado, revela seu interesse pelas coisas do mar: são os barcos de guerra, as caravelas, veleiros, barcos a vela, embandeirados. Extraordinários são seus bordados, em lençóis velhos, e com linhas azuis desfiadas dos uniformes dos doentes: são os estandartes, onde Bispo conta sua história de vida, descreve roteiros de caminhos, o mapa do Brasil e a divisão de seus territórios, o corpo humano e suas doenças e sintomas, o mapa exato da Colônia com todos os seus pavilhões. De toda sua obra, o mais impactante são as roupas: capas , fardões, e , o mais impressionante, o “manto do reconhecimento”, com que se apresentaria a Deus no momento de sua morte. Neste, além dos ornamentos que o cobriam por fora, na parte interna bordou os nomes dos eleitos que o acompanhariam nessa última viagem.Arthur Bispo do Rosário, excluído, abandonado, contou ao mundo uma história, a sua história, obedecendo a uma voz que ouviu na solitária: “Está na hora de você reconstruir o mundo”. Cumpriu a ordem. Tornou-se artista reconhecido e admirado pelo conjunto de sua criação plástica — cerca de duas mil peças — no panorama atual da arte moderna, com exposições já realizadas na França, Suécia. Itália e Estados Unidos.
Um artista da norma culta se destaca neste painel da produção artística com materiais não convencionais, as sobras de uma sociedade consumista: é Raimundo Rodrigues. Pintor, escultor, criador de surpreendentes montagens, responsável e admirado pela cenografia do seriado Hoje é dia de Maria , da TV Globo, é ainda um verdadeiro agitador cultural que mobiliza sua comunidade e o universo escolar da região de Nova Iguaçu, Rio de Janeiro, onde mora. É um dos fundadores do Grupo Imaginário Periférico, que tem como meta expandir o circuito da arte para a periferia. Ao utilizar resíduos, restos de coisas, desenterrados e guardados com paixão de arqueólogo, ele faz, através da arte, um registro sociológico de sua realidade, integrante que é de uma rica cultura interiorana. Uma sempre presente inquietação, provocada por muitos questionamentos, uma pesquisa incansável que o leva, em todos os setores em que atua, a procurar o novo no já usado, a se reciclar constantemente.
EFIGÊNIA RAMOS ROLIN
Possuidora de uma imaginação delirante, esta artista plástica, poeta e contadora de histórias, usa somente materiais reaproveitados para suas criações. São vestidos, capas, chapéus, bonecos e sapatos feitos com papéis de balas, retalhos de tecidos, caixinhas de fósforo e sucata miúda. Ela mesma se considera uma pessoa reciclada por já ter passado por muitos sofrimentos e necessidades e hoje desfrutar de uma situação financeira confortável e sem sustos. Para cada peça que cria há uma história que ela conta enquanto movimenta sua criação.
