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ARTE OU ARTESANATO?

É controvertida a conceituação da diferença entre arte e artesanato, que este espaço não permite aprofundar. Em tese, porém, a classificação de um objeto, segundo sua feitura, depende do “grau de habilidade e talento criador do obreiro” (MARTINS, 1977: 15). De uma escultura feita com madeira nobre à confecção de uma espátula, o resultado vai depender de o artífice conseguir transmitir a emoção que o impulsionou para o outro que observa a peça. Se o consegue é um artista, seja fazendo, com miolo de pão, minúsculos bichinhos ou uma luminária — com traços do art-nouveau — aproveitando pedaços de objetos de metal. “O objeto de arte é uma emoção humana cristalizada. Embora silencioso, comunica por si mesmo, transmite a idéia de seu criador à pessoa que o contempla... Não importa a língua falada pelo autor, a região em que foi criada, a escola que o representa, a época em que surgiu... A arte é um dom, não se pode ensiná-la. O que se ensina é a técnica, o fazer. E não o criar”. (MARTINS, 1977: 14)
O artista é, por conseguinte, o que consegue passar para o que está no plano do concreto (a matéria bruta) algo que pertence ao plano espiritual – uma sensação, um sentimento. Fazer a passagem mágica do abstrato para o concreto. Para alcançar esse resultado, no entanto, ele precisa conhecer e dominar o material com que trabalha, através do qual vai se expressar. Todo artista precisa ser um bom artesão. Como explica Adalton Fernandes Lopes, importante ceramista fluminense: “Você tem que ser senhor do barro. Ele tem que te obedecer. A gente domina ele, depois ele faz o que a gente quer”.
A recíproca, porém, não chega a ser verdadeira. Um artesão talentoso que domina sua técnica, mas não chega a expressar uma idéia de sua mente, não passa para a outra categoria. Ele sabe fazer: o predomínio está no que faz com as mãos. O artista cria, o artesão repete. O artista é o valor mais puro, é a fonte, o modelo; o artesão é o talento manual, o reprodutor. É o caso de Vitalino, o grande artista do barro de Caruaru, em Pernambuco e seus descendentes e contemporâneos que seguem, até hoje, formas e modelos cridos por ele. Isto não quer dizer que o artesão não opera criativamente; ele exerce o ser trabalho com sensibilidade, pois o artesanato não é simples ato passivo.
Artistas das camadas pobres, como Gabriel e Bispo do Rosário, expoentes no trato com materiais rejeitados, revelam uma vitalidade original e marcante. As artes de fonte popular, muito discriminadas até recentemente, estão hoje mais presentes em publicações, em exposições em museus e galerias, embora exista ainda “uma barreira econômica que reduz esse artista a uma condição de inferioridade com relação aos seus pares da norma culta”. (FROTA, 2005:24)
Há uma aproximação real e digna de menção da arte popular com a arte pós- moderna, segundo o crítico de arte Frederico de Morais: “Em ambos os casos há grande liberdade no uso e manuseio de materiais não-hierarquizados e não nobres. (MORAIS, 1976:3). Em outro artigo, diz: “Bispo é pós-moderno... próximo, em suas criações, de Marcel Duchamp e o ready-made até chegar em Hélio Oiticica e seus parangolés”. (MORAIS, 1989:5)
A garrafa de plástico (pet), que Bispo enche de papeizinhos, e usada nos insetos de Leandro Penha se transforma “em algo novo, ganhando um segundo valor. Esse contexto da reciclagem, do reaproveitamento, da inserção de resíduos novamente no sistema” (WALTY, 2004:68) é presença indiscutível na arte contemporânea. O mesmo princípio rege o trabalho dos carnavalescos para o carnaval carioca, nos desfiles das escolas de samba, quando todo tipo de sucata é aproveitada com a intenção de parecer material nobre. Fantasias e adereços mostram a exuberância e a criatividade dos foliões para a festa de Momo.
Embora o artesão ou o artista populares estejam de alguma forma sempre ligados às tradições de sua cultura, ele é, em essência, um criador, capaz de encontrar soluções novas para a resolução de suas dificuldades. Desligado de compromissos com escolas ou tendências da arte culta, da arte oficial, livre de regras ou modelos, o homem do povo usa sempre de sua intuição.
Não há regras para ele, não há limites, vale tudo, sua imaginação é que o dirige, tem total liberdade para criar. A expressividade é, em conseqüência, seu maior atributo.

LEANDRO PENHA
O “insect man”, como ele se autodenomina, cria insetos com plásticos de garrafas pet pintados. Joaninhas, borboletas, vespas e gafanhotos são alguns de seus trabalhos.

RAIMUNDO RODRIGUES
Artista contemporâneo, pintor, escultor e cenógrafo, utiliza qualquer tipo de material descartável em suas criações. Integrante do grupo Imaginário Periférico, ele consegue praticar a reciclagem de suas próprias obras, desfazendo-as para construir novos objetos. Foi assim sua participação na produção “ Hoje é dia de Maria ”, da TV Globo, onde recortou sete telas de sua autoria para revestir o cenário e o figurino de uma personagem.
Na Reciclasa, de sua autoria há um mapa do Brasil feito com fundo de latas, um figurino armadura feito com placas de automóveis e uma assemblage.

DENEIR DE SOUZA MARTINS
Considerado um artista muito inventivo, tira novos usos e funções dos materiais mais banais. Um exemplo é o robô feito com colheres, baterias e lâmpadas e o quadro “ Balões de São João ”, no qual utiliza pedacinhos de latas de refrigerantes cortados como bandeirinhas.



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