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A RECICLAGEM NA ARTE E NO ARTESANATO POPULARES

Desde que o homem, no início dos tempos, começou a usar as mãos, ele o fez também para criar objetos que iam ajudá-lo a sobreviver e a suprir suas necessidades. Do osso, do chifre, da madeira, do barro, da pedra, das fibras vegetais foram criadas ferramentas rudimentares e utensílios que iam tornando sua vida mais fácil e confortável. Da necessidade foi surgindo a criação. Os objetos criados eram fundamentalmente utilitários.
Em nossos dias, tal como o homem primitivo, o artesão oriundo das camadas populares não produz seus objetos à procura de prazer estético. É evidente a intenção de beleza nos produtos criados, e isso é inerente ao homem, mas quase nunca é esse o propósito inicial do autor. Ele vai criar principalmente produtos funcionais e coletivos que lhe serão úteis no dia-a-dia, em seu lar, em seu trabalho, na caça e na pesca, na preparação e ornamentação de suas festas, nas vestimentas e rituais de suas crenças religiosas, nas máscaras e estandartes, nas fantasias de carnaval. Vai produzir todas as utilidades de que precisa, desde sua moradia até o brinquedo de sua criança. Ele trabalha com as mãos e com ferramentas rudimentares, muitas vezes improvisadas com cacos de vidro, sabugos de milho, pedaços de arame, palitos de fósforos, para ajudá-lo na criação de objetos de toda espécie, usos e funções.
Utiliza como matéria-prima basicamente o que a natureza fornece, traço característico de tradições culturais presentes em sua vida há milênios. Como exemplos, o carro-de-boi e a jangada, surgidos há 6000 a 8000 anos AC e presentes até hoje, em todo o mundo, segundo o folclorista Câmara Cascudo.
Com inteligência e um senso de oportunidade muito grande, utiliza, com freqüência, sobras de produtos industrializados, reutilizando-os ou reciclando-os. É uma atitude, é uma escolha consciente (inconsciente, em alguns casos) pelo aproveitamento desse tipo de material gratuito para seu labor. Ele cria e recria, inventa novas funções para coisas já usadas, remenda pedaços de objetos para compor um outro. Simples sacos plásticos de leite servirão para produzir uma sacola, um pneu de caminhão transforma-se em lata de lixo, um tubo de PVC vira uma flauta para o músico da Folia de Reis, retalhos de pano montarão uma encantadora bruxinha.
Quase sempre premido por graves dificuldades financeiras, o pobre, segundo Carlos Lessa, é “um mestre no remendo e na reciclagem... O lixo, para ele, é fonte renovável de recursos naturais na qual ele garimpa e cria mercadorias... Cada vez mais opulento, na pós-modernidade, o lixo oferece campo para uma estratégia de sobrevivência ligada à coleta do reciclável e do descarte urbano ”. ( LESSA, 2000: 15)
Depoimento comovente de Gabriel Joaquim dos Santos, o criador da Casa da Flor, quando fala da sua preferência pelo lixo: “Não sei o que tenho eu com os cacos. Quebra um prato, eu fico tão contente que me dê um caco, depois eu transformo o prato em flor. Fico tão satisfeito!”

FLORIPES HAYASHI
Esta filha de japoneses de 77 anos cria jarrinhas de flores com o plástico das garrafas pet, que, depois de pintadas com tinta acrílica, ficam ainda mais delicadas.



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