A ALMA SECRETA DAS COISAS
Para os alquimistas, “o objeto precioso que buscamos será encontrado na matéria mais vil” (JAFFÉ, 1964: 254), princípio esse percebido e seguido, séculos depois, pelos artistas plásticos ligados ao Surrealismo, movimento cultural surgido no início do século XX, durante a catástrofe da Primeira Guerra Mundial e terminado, através de um manifesto, em 1969. Os integrantes do movimento procuravam expressar, através da poesia, das artes plásticas, do teatro, do cinema, a revolta, a inquietação, o não conformismo, a recusa de valores, como o belicismo, que caracterizavam a época. Os artistas, como sempre instrumentos e intérpretes da época em que vivem, projetavam as trevas de que estavam possuídos, o pessimismo que vinha se apoderando de suas almas. Com o distanciamento, cada vez maior, do homem de seus “fundamentos instintivos” (JAFFÉ, 1964: 253), abriu-se, captado pelos sensíveis artistas, “um abismo entre a natureza e a mente, entre o inconsciente e o consciente”, caracterizando “a situação psíquica que buscou expressão na arte moderna”. O Surrealismo, portanto, era a teoria do irracional ou do inconsciente projetado na arte. A arte moderna, surgida então nas primeiras décadas do século passado, vai ocupar lugar definitivo na história do espírito humano e de sua significação simbólica. O Surrealismo, definido pelo grupo que o compunha como um “estilo de pensar, ou melhor, um estado de espírito” (PONGE, 1991:17), tinha como objeto de preocupação o ser humano, “a vontade de conscientização e liberação integral do homem” (PONGE, 1991:19). Na raiz do Surrealismo, a presença da semente da inquietação, a busca de mudanças. Começa a procura pelo grande realismo, pelo objeto puro, pela matéria, pelo concreto.
Em defesa da idéia nova, de vanguarda, escreveu Kandinski: “Tudo que está morto palpita. Não apenas o que pertence à poesia, às estrelas, à lua, aos bosques e às flores, mas um simples botão de calça a cintilar na lama da rua... Tudo possui uma alma secreta que se cala mais do que fala” (JAFFÉ, 1964:254).
Os artistas plásticos, suas pinturas, esculturas e colagens, desse movimento inédito na história da arte, foram motivo de zombarias: não eram obras fáceis de serem compreendidas e assimiladas. Provocavam mais espanto que admiração, motivo pelo qual os surrealistas valiam-se de manifestos, através dos quais procuravam esclarecer sua motivação, suas idéias. Alguns dos maiores nomes da arte mundial — Picasso, Braque, Max Ernest e o alemão Kurt Schwitter — inseridos no ideário do movimento, criaram obras com detritos de latas de lixo. Eram colagens com barbantes, papéis, tiras de pano, rolhas, botões, pregos, bilhetes de trem e objetos rejeitados, largados pelas ruas. Miró ia à praia todos os dias a recolher detritos trazidos pela maré, com os quais criava estranhas composições, que surpreendiam até a ele mesmo. Paul Klee confirmava que “o objeto expande-se além dos limites de sua aparência pelo conhecimento que temos do que ele significa, mais do que o que vemos exteriormente, pelos nossos olhos”. Para eles, era clara a percepção de que o objeto significa “mais do que o olho pode perceber” (JAFFÉ, 1964: 254). A idéia da reciclagem, fica óbvio, está na essência da arte moderna e sua linguagem é o resultado de símbolos poderosos na psique do homem dos séculos XX e XXI.
LOURIVAL SOUZA
Depois de trabalhar muitos anos numa fábrica de lustres, resolveu misturar peças diferentes e fez sua primeira luminária com materiais reaproveitáveis. A sucata industrial é muito utilizada em suas obras. Entre os objetos mais encontrados nelas, estão arames, arrebites, canos, chaves, dobradiças e correntes, os quais, encaixados, formam conjuntos harmoniosos e muito bonitos.
Lourival Souza faleceu em 2003.
